A doença celíaca (DC) é uma doença autoimune, que se caracteriza por lesão inflamatória da mucosa intestinal do intestino delgado, com atrofia das vilosidades intestinais, induzida pela ingestão de glúten. As manifestações clínicas da DC podem envolver o trato gastrointestinal, assim como pele, fígado, sistema nervoso, sistema reprodutivo, ossos e sistema endócrino. 

O glúten corresponde à fração proteica dos grãos de trigo, centeio, cevada e aveia, composta por dois grandes grupos: o grupo das prolaminas, que são proteínas solúveis em solução etanóica (60%), e o grupo das gluteninas, proteínas insolúveis em solução etanóica . A toxicidade do glúten para pacientes celíacos está predominantemente ligada às prolaminas. Em cada tipo de cereal, o grupo prolamínico recebe um nome próprio como gliadina no trigo, hordeína na cevada, secalina no centeio e avenina na aveia.

O tratamento para a DC é essencialmente de controle alimentar e consiste na exclusão completa de glúten da dieta do paciente, isto é, exclusão de alimentos feitos com trigo, centeio, cevada e seus derivados e aveia, pelo resto da vida. A retirada do glúten da alimentação não cura a doença, mas a mantém em remissão clínica, sorológica e histológica. Há notícias de desenvolvimento de vacinas e remédios com a finalidade de diminuir a sensibilidade dos pacientes ao glúten, mas as pesquisas ainda se encontram nas fases iniciais.

O tratamento deve ser realizado tanto no caso de pacientes sintomáticos quanto nos assintomáticos com alterações histológicas, de forma a evitar o progresso da doença. Os sintomas, entretanto, reaparecem no caso da ingestão de alimentos contaminados com glúten.
A substituição dos alimentos com glúten geralmente é realizada utilizando-se milho, fubá, arroz, batata, mandioca, polvilho, soja, quinua e suas farinhas. Entretanto a população celíaca enfrenta uma série de dificuldades:
1)os produtos desenvolvidos sem a contaminação de glúten geralmente tem uma valor bem mais alto do que os produtos costumeiramente confeccionados com trigo, em especial, tornando a dieta bastante cara;
2)o glúten, por suas características físicas, é quem confere elasticidade e leveza às massas. Essas propriedades ficam comprometidas especialmente em produtos de panificação;
3)o número de produtos oferecidos para a população celíaca ainda é muito pequeno (em parte pelas dificuldades apresentadas nos itens 1 e 2, principalmente fora dos grandes centros urbanos;
4)a falta de informação e conscientização dos restaurantes e indústrias alimentícias leva, inúmeras vezes, à contaminação de alimentos naturalmente livres de glúten, durante o armazenamento e preparo, confundindo os celíacos sobre quais produtos são efetivamente seguros para consumo.

Doença celíaca não tratada tem alta morbimortalidade. Anemia, infertilidade, osteoporose, e câncer, principalmente, linfoma intestinal, estão entre os riscos de complicação em pacientes sem tratamento.

A Comissão Alimentar CODEX estipula que a quantidade de glúten nos alimentos livres de gluten não deveria ser superior a 2 mg/100g ou 20 mg/Kg de alimento ou 20 ppm. No Brasil, a Lei nº 10.674/2003 obriga que os rótulos de todos os produtos alimentícios e bebidas contenham as inscrições em destaque CONTÉM GLÚTEN ou NÃO CONTÉM GLUTEN, nos casos de teores >20ppm ou <20 ppm, respectivamente, de forma a permitir a prevenção e controle da doença celíaca.


Quais são os sinais mais comuns da doença?

Podem variar de pessoa a pessoa, porém os mais comuns são:

 Diarréia crônica (que dura mais do que 30 dias)
 Prisão de ventre;
 Anemia;
 Falta de apetite;
 Vômitos;
 Emagrecimento / obesidade;
 Atraso no crescimento;
 Humor alterado: irritabilidade ou desânimo;
 Distensão abdominal (barriga inchada);
 Dor abdominal;
 Aftas de repetição;
 Osteoporose / osteopenia. 

Como a doença celíaca é diagnosticada?

Não há um único teste para esse diagnóstico, que é firmado após a associação de dados clínicos e laboratoriais.Os exames de sangue são muito utilizados na detecção da doença celíaca. Os exames do anticorpo anti-transglutaminase tecidular (AAT) e do anticorpo anti-endomísio (AAE) são altamente precisos e confiáveis, mas insuficientes para um diagnóstico. A doença celíaca deve ser confirmada encontrando-se certas mudanças nos vilos que revestem a parede do intestino delgado. Para ver essas mudanças, uma amostra de tecido do intestino delgado é colhida através de um procedimento chamado endoscopia com biópsia (Um instrumento flexível como uma sonda é inserido através da boca, passa pela garganta e pelo estômago, e chega ao intestino delgado para obter pequenas amostras de tecido). A deficiência de IgA, que ocorre em 3% dos pacientes com DC, pode ser causa de falso-negativos, já que a sorologia é baseada em anticorpos IgA. Outra causa de exames falso-negativos é a restrição de glúten na dieta, por isso, a investigação diagnóstica deve ser realizada na vigência de dieta com glúten. Uma revisão demonstrou que a relação de pacientes com DC diagnosticada e não diagnosticada pode ser de 1:7

Quem deve ser testado?

O diagnóstico de DC nem sempre é fácil de ser realizado. Em torno de 10% dos casos, há dificuldade de diagnóstico por achados discordantes entre sorologia, clínica e histologia. O diagnóstico de DC deve ser cogitado em todo paciente com diarreia crônica, distensão abdominal, flatulência, anemia ferropriva, osteoporose de início precoce, elevação de transaminases, familiares de primeiro e segundo graus de pacientes com DC, SII, hipocalcemia, assim como na deficiência de ácido fólico e vitaminas lipossolúveis. Além disso, DC está associada a diversas Diagnóstico de doença celíaca em adultos Rev Assoc Med Bras 2010; 56(1): 122-6 123 doenças como diabetes melito tipo I , hipo e hipertireodismo, síndrome de Sjogren, cirrose biliar primária, hepatite autoimune, autismo, depressão, epilepsia, ataxia cerebelar, infertilidade, puberdade tardia, deficiência de IgA seletiva, Síndrome de Turner, Síndrome de Down e neuropatia periférica.



Se você tem sintomas de sensibilidade ao glúten, antes de mais nada, procure um médico para que sejam realizados os exames diagnósticos. Não convém iniciar uma dieta livre de glúten antes dos exames, para não mascarar os resultados!

 

Fontes:
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Silva, T.S.,  Furlanetto, T.W., Diagnóstico de doença celíaca em adultos, Universidade Federal do Rio Grande do Sul