Muito se fala sobre a intolerância ao glúten não celíaca. Foi verificado que existem dados de pacientes que relatam sintomas relacionados ao glúten, mas sem evidências de doença celíaca. Por exemplo, em uma série de 94 adultos que relataram sintomas abdominais após a ingestão de cereal, 63% dos participantes do estudo não apresentavam doença celíaca ou alergia a cereais nos exames histológicos ou imunológicos. Apesar disso, esses indivíduos beneficiaram-se sintomaticamente de uma dieta livre de glúten, embora a dieta não tenha sido testada em um grupo separado de 30 controles. Historicamente, também tem sido observado que parece haver um aumento na prevalência de anticorpos antigliadina naqueles que reclamam de sintomas relacionados ao glúten (40%) e em pacientes com síndrome do intestino irritável (17%) em comparação a controles saudáveis (12%), apesar da exclusão de doença celíaca através de biópsias duodenais normais e testes negativos para anticorpos antiendomísio e antitransglutaminase tecidual.

Um grande estudo cruzado, duplo-cego e controlado por placebo demonstrou recentemente a existência de sensibilidade ao trigo em pacientes sem doença celíaca: 920 pacientes com sintomas de síndrome do intestino irritável foram submetidos a uma dieta de eliminação padrão de quatro semanas (trigo, leite de vaca, ovos, tomate, chocolate e qualquer outra hipersensibilidade alimentar conhecida) e então a um desafio cruzado com um período de washout de uma semana. Um terço dos pacientes (n=276) apresentou sensibilidade clínica e estatisticamente significativa ao trigo e não ao placebo, com piora da dor abdominal, distensão abdominal e consistência das fezes. As evidências, portanto, sugerem que, mesmo na ausência de doença celíaca, produtos à base de glúten podem induzir sintomas abdominais que se apresentam como síndrome do intestino irritável.

O reconhecimento de que as reações ao glúten não se limitam à doença celíaca levou ao desenvolvimento de um documento de consenso em 2012 entre um grupo de 15 especialistas internacionais. Sugeriu-se uma nova nomenclatura e classificação, com três condições induzidas pelo glúten – doença celíaca, alergia ao trigo e sensibilidade ao glúten não celíaca. A definição de doença celíaca é mencionada no post sobre a doença, neste site. A alergia ao trigo é definida como uma reação imunológica adversa às proteínas do trigo mediada por IgE – pode apresentar-se com sintomas respiratórios (“asma do padeiro” ou rinite, mais comum em adultos), alergia alimentar (sintomas gastrintestinais, urticária, angioedema ou dermatite atópica; principalmente em crianças) e urticária de contato. Os testes para alergia ao trigo incluem dosagem sérica de IgE ou testes cutâneos para o trigo. A sensibilidade ao glúten não celíaca é uma forma de intolerância ao glúten quando a doença celíaca e a alergia ao trigo foram excluídas.

A prevalência de sensibilidade ao glúten não celíaca foi relatada em 6% com base na experiência da clínica Maryland (onde, entre 2004 e 2010, 5.896 pacientes consultaram, sendo que 347 atenderam aos critérios para sensibilidade ao glúten não celíaca). Contudo, a verdadeira prevalência na população geral é desconhecida. Além disso, não existem biomarcadores específicos para identificar a sensibilidade ao glúten não celíaca, e o desfecho a longo prazo para esses pacientes não é conhecido.

Entretanto, de acordo com Biesiekierski, muitas pessoas que referem ter sensibilidade ao glúten podem não ter sido adequadamente avaliadas para excluir a possibilidade de doença celíaca, diz novo estudo.

Foram incluídos no estudo, 147 participantes, com 40-45 anos, em média, a maioria mulheres.

Setenta e dois porcento dos entrevistados não se adequavam à descrição de sensibilidade ao glúten não celíaca. Isto porque, muitos não havia sido submetidos a exames para descartar doença celíaca e ainda apresentavam sintomas apesar a exclusão do glúten da dieta ou não seguiam dieta isenta de glúten.

Os pesquisadores também verificaram que 44% dos participantes iniciaram dietas isentas de glúten por conta própria e 21% iniciaram sob orientação de profissional de saúde alternativo. O restante iniciou a dieta por sugestão de nutricionistas ou clínicos gerais.

Cerca de 58% seguiam dieta completamente sem glúten, mas 1 em cada 4 pessoas ainda apresentava sintomas, mesmo seguindo a dieta.

Por isso, os pesquisadores aconselham avaliação de gastroenterologista para confirmar o diagnóstico, antes de iniciar a dieta. A sensibilidade ao glúten não celíaca ainda não é bem conhecida e há muitas incertezas quanto a esta condição.

Se você tem sintomas de sensibilidade ao glúten, antes de mais nada, procure um médico para que sejam realizados os exames diagnósticos. Não convém iniciar uma dieta livre de glúten antes dos exames, para não mascarar os resultados!

Fontes:

http://www.fenacelbra.com.br/fenacelbra/sensibilidade-ao-gluten-na-ausencia-de-doenca-celiaca/

Biesiekierski JR, Newnham ED, Shepherd SJ, Muir JG, Gibson PR. Characterization of Adults With a Self-Diagnosis of Nonceliac Gluten Sensitivity. Nutr Clin Pract. 2014 Apr 16.